com pocos, pero doctos, libros juntos,
vivo en conversación com los difuntos
y escucho com mis ojos a los muertos"
Quevedo
Ina Von Binzer
Meus Romanos – Alegrias e Tristezas de uma Educadora Alemã no Brasil.
O Brasil tem uma rica bibliografia de viajantes estrangeiros durante o período colonial, mas eram todos visitantes de salão. Ina viveu na Casa Grande, e suas observações do Brasil são de uma pessoa que conheceu o cotidiano das famílias agrárias da primeira fase do café.
Aos vinte e poucos anos, conseguiu um contrato para ser preceptora de uma família cafeeira no estado do RJ. Chegou ao Brasil em 1881 e retornou a Alemanha 3 anos depois. Sua sensibilidade, sua preparação intelectual para uma idade tão jovem, impressiona. Fala coisas interessantes sobre o Brasil imperial, sem deixar de mencionar repetidas vezes as conversas que ouvia e o pouco que lia a respeito do fim iminente da escravidão (com a lei do Ventre livre) e a marcha para a República na opinião de lideranças agrárias.
O livro é composto por cartas escritas do Brasil para uma amiga na Alemanha e tem um estilo confessional e irônico.
Tal como o suíço Davatz, que veio ao Brasil como colono, mas com uma bagagem intelectual inusitada pelo livro que escreveu sobre o trabalho na fazenda do Senador Vergueiro (ver aqui a resenha), Ina falava em francês com a família e ensinava alemão e inglês para os filhos da elite, além de aulas de música ao piano.
Suas observações, próprias de um espírito observador e detalhista, dizem coisas assim sobre as refeições:
“Sem lançar mão de muito cálculo e habilidade não é fácil obter-se dos brasileiros uma refeição quente, pois cada vez que você balbucia um s’il vous plait, a mão de uma das negras copeiras (aqui eram quatro) apossa-se de seu prato com rapidez de raio, correndo para o administrador da iguaria mencionada, para satisfazer seu pedido. Por aí você vê que poderá comer tanto mais tranquilo e mais quente quanto menos complicado você montar a sua refeição, porque a cada s’il vaus plaît o seu prato terá de enfrentar uma nova viagem”.
O excesso de banha, a farinha de mandioca no lugar do trigo, o onipresente feijão preto, custavam-lhe adaptar-se a uma realidade de casarões com muita luz porque sem cortinas.
“Primeiro, travei uma das mais duras batalhas contra os biscoitos que recebi no estado número três; depois a Santa Inquisição esteve particularmente desagradável e, além disso, ando sofrendo de uma terrível nevralgia que quase me impede de comer e de falar. Isto é mal comum entre os europeus aqui e ataca também os de cá. É terrivelmente doloroso, ainda mais quando se tem de lecionar.”
A Santa Inquisição era o nome que dava para as censuras e restrições impostas pela família ao espírito liberal e distante dela. Mas os biscoitos, duros como pedra, não permitiam ser comidos senão mergulhando no café.
“Quero descrever-lhe minha cama e peço-lhe uma lágrima por mim. Imagine um
banco rústico de madeira, sem cabeceira mas com braços aos lados; essa é a
armação do meu leito. Em cima de um estrado, o colchão, cujo enchimento é
composto de ervas selvagens, misturadas, por motivo ignorado, com graciosos
galhos e gravetos. Sobre este banco de tortura coberto com um lençol,
oculta-se um travesseiro em miniatura, que no princípio pensei ter sido
perdido pela Mariazinha, e pertencer ao berço de sua boneca. Mas deve ser
mesmo o meu próprio travesseiro, recheado com uma flor seca, amarela, que
possui uma vaga semelhança com as nossas sempre-vivas mas chama-se
"marcela”. Coroando tudo isso, cobre-se a cama com um cobertor de lã inglês.
Conseguirei entrar em entendimento com esse lado da vida brasileira?
Assim o espero. Por enquanto, para minha tranquilidade, estou procurando
conhecer pessoalmente todos os gravetos de meu colchão e ver se consigo
também um pouco de calor neste leito de asceta, pois se os dias são quentes,
as noites agora são sensivelmente frias.”